Ponto de vista: a comunicação de massa do século XX já era!
Cargo atual: sócio-diretor da Netpress, agência de produção e distribuição de conteúdo em áudio digital.
Breve histórico profissional: Jornalista formado pela Universidade de São Paulo (USP). Foi repórter e editor de veículos impressos, rádio, TV e internet. Especializado em Tecnologia da Informação e Comunicação (TI&C) e suas aplicações nos negócios. Também atuou como assessor de imprensa para empresas como Intel, Microsoft e UOL. Foi editor da revista InformationWeek Brasil e portal ITWeb, gerente e editor do site da Rádio Bandeirantes na internet e editor do jornal Primeira Hora, da Rádio Bandeirantes. Participou do lançamento do Canal 21 (hoje TV Play). Pós-graduado em "Jornalismo, Mercado e Tecnologia", realizou curso de Administração de Marketing, na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Também foi editor do Jornal da Manhã da Rádio Jovem Pan, correspondente em São Paulo da Rádio Alvorada (RJ e MG) e redator-chefe da revista de motociclismo Duas Rodas.
Quando e como surgiu a idéia de criar a NetPress? Quando resolveu largar a redação de tecnologia da informação?
Não larguei a redação de tecnologia da informação. Continuo com programas na área, tanto para empresas como pessoas. O "Gestão Empresarial" – um dos programas - é para ajudar executivos de negócios a encontrar recursos de TI para seus problemas rotineiros. E o programa "Vida no Século XXI" presta serviços para consumidores traduzindo termos do tecniquês para o português e apontando o impacto da tecnologia em nossas vidas. Tive minha primeira rede de rádio informal no início dos anos 90, quando já era editor do Jornal da Manhã, da Jovem Pan - aquele do "Vambora! Vambora!" Uma vez atendi o telefone e era uma rádio do Rio de Janeiro pedindo para eu gravar um boletim sobre a bolsa de valores. Assim comecei e em um ano já falava em algumas emissoras de São Paulo, Rio e Minas Gerais, como correspondente de São Paulo. Daí foi um pulo para imaginar uma rede mais organizada, só que na época os custos eram muito altos. Hoje, com internet, está mais fácil fazer isso.
E de que forma você encara a convergência das mídias hoje? Gravações de rádio transitando pela internet...
Acho que o MP3 será a porta para uma verdadeira rádio digital. Não a que se pretende fazer com as emissoras convencionais de AM e FM, cujas tecnologias existentes não permitem interação. Mas uma rádio verdadeiramente interativa, em que se possa escolher o que se quer ouvir na hora em que se quer ouvir.
Como tem sido a receptividade em relação a esse serviço, considerando que para o MP3, por exemplo, seria melhor uma expansão da banda larga, o que não acontece. Costumo até brincar que o brasileiro é o que passa mais tempo na web no mundo porque a conexão discada ninguém merece e só pra abrir uma pagina o internauta leva cinco minutos...
Pois é. Isso é quase verdade. O que acontece é que tem muita gente fazendo coisas em áudio, sob o apelido de podcast, que não tem qualidade técnica. A Netpress domina a tecnologia e a gente consegue fazer arquivo de som para ser ouvido em conexão discada. Por exemplo, a gente usa perto de 500 kbytes para um arquivo de dois minutos. Mas tem gente, inclusive em portais e mesmo em grandes empresas de comunicação que precisam de 7 Mbytes para fazer o mesmo. Além disso, a gente domina a linguagem do rádio, dos programas para se ouvir, o que não tem se encontrado na internet. Pelo menos, no Brasil.
Então, todo mundo fala em interatividade, em jornalismo colaborativo. Como você define interatividade? O que andam fazendo por aí pode ser considerado interativo?
O primeiro aspecto da interatividade do áudio é você poder ouvir o que quer quando quer. Acho que isso está longe de acontecer com plenitude, até por causa dos problemas técnicos a que me referi.
As empresas têm apostado/patrocinado esse tipo de iniciativa pela experiencia e pelo que tem visto no mercado?
A gente trabalha com soluções. Então não depende meramente de patrocínio. Ou seja, desenvolvemos nossos próprio programas, do nosso portfólio, e distribuímos para 79 emissoras de nossa rede de rádio, gratuitamente, porque os programas são patrocinados. Mas também criamos programas para sites de empresas, para ilustrar newsletters e também rádios corporativas, que são veiculadas dentro de grandes lojas, clínicas, laboratórios etc... o mercado ainda está entendendo o que é som digital e quais são as possibilidades desse recurso quando bem planejado e executado.
Como mensura o impacto de tudo isso nos meios tradicionais?
Nossa!!! É um impacto gigante. As emissoras de rádio tradicionais temem esse processo, mas há muitas saídas para elas, desde que invistam em seu próprio pessoal, contratem profissionais inovadores e profissionalizem mais o meio. Para jornais, revistas... tudo que é impresso, acho que será um impacto bem maior, porque você tende a ter muito mais coisas audíveis na sua rotina por falta de tempo para fixar os olhos em páginas de letrinhas. Os leitores, do tipo text-to-speach, vão dominar uma boa parte da atenção das pessoas. Porque OUVIR é a ÚNICA COISA que se pode ENQUANTO SE FAZ OUTRA COISA. Isso é o mais importante que a linguagem sonora pode oferecer e que o vídeo não consegue competir
Mas isso ainda vai levar um tempo, não? Já que boa parte dos decisores/formadores de opinião ainda são da velha guarda... a nova geração, hiperlinkada e conectada, ainda vai começar a entrar no mercado de trabalho.... é o famoso conflito de gerações..
10 anos é muito tempo? Acho que não. Os macacos velhos também precisam ocupar melhor o seu tempo para obter informações importantes. E isso é agora.
Acredita que as assessorias de imprensa já estão atentas para esses novos meios e canais de comunicação, mais diversificados, interativos e digitais? E mais, que podem assumir a produção desse conteudo por novos meios?
Estão começando a entender. Muitos clientes já buscam soluções inovadores para distribuir suas informações. É que o trabalho de assessoria hoje tem muitas variantes e tenta se encontrar nesse novo ambiente cross media, convergente e interativo. O negócio é que ninguém será capaz de fazer tudo sozinho, se quiser fazer direito. E, por mais que as assessorias tentem, o mercado é mais exigente do que pode parecer hoje em plena crise de modelos de negócios de comunicação. Se você é bom em assessoria de imprensa, não significa que será bom para fazer vídeo, áudio e texto. Aliás, conheço muitas iniciativas frustradas de se fazer revista dentro de assessorias de imprensa. Elas não são editoras.
Mesmo dentro das assessorias, ainda não há aquela visão muito voltada para papel, jornais impressos e revistas de grande circulação, etc? Não tem a sensação as vezes que não dão a mínima importância para iniciativas desse gênero, de rádio online, portais de podcasts, e mesmo sites de notícias?
As assessorias de imprensa fazem o que o cliente quer. Se tivermos relevância fazendo o que fazemos, teremos a atenção das empresas.
Ainda tem contato com elas (assessorias)? E como é essa interação, o tratamento, afinal, você foi editor de um veículo tradicional e respeitado. Também esteve em assessoria por um bom período.
É como disse. Enquanto qualquer iniciativa tem um efeito muito pequeno no mercado, os clientes não se interessam. Ninguém investe para ser amigo de qualquer jornalista. Todos querem ser amigos dos mais poderosos: aqueles que com poucas linhas podem dar nomes a todos os bois. Eu estou me reerguendo profissionalmente, com a minha própria marca. Mas não é fácil. Até os assessores de impresa "mais amigos" viram de costas para você. Eu até já fui mais importante como jornalista antes de ser editor na área de TI, quando assessoria de imprensa ainda era uma coisa reativa. Hoje, vc entra em qualquer lugar e tem mais assessor de imprensa do que jornalista. Sinal dos tempos.
Mas a fragmentação da comunicação, com gente fazendo blogs e podcasts, criticando empresas, etc, esse cenário não muda? Conheço alguns blogs que já formaram uma comunidade em torno deles e têm mais de 1200 visitas por dia...
O cenário é este mesmo: homem como mídia. As pessoas ganharam voz. Se antes você tinha "Mais um Campeão de Audiência", hoje você tem mais um pequeno gerador de informações. Uma pessoa influente, com uma boa comunidade no Orkut, pode ser mais eficaz para distribuir uma informação do que o Casal Jornal Nacional. A comunicação de massa do século XX já era. A comunicação de massas do século XXI é diferente e usa a tecnologia. Hoje temos uma grande rua chamada internet, que se transforma em uma grande praça quando você quer falar com milhões de uma vez só. Será que o Lula seria o mesmo sindicalista popular hoje? Nos anos 70 ele subia em carroceria de caminhão. Hoje o nego precisa ter muito mais conteúdo para mover qualquer massa. E tem de estar online.
Por ter sido de redação, de assessoria e agora estar com esse projeto novo, que dicas daria às agências de comunicação em relação a esses dilemas modernos da comunicação?
Fiquem espertos e sejam mais humildes.
Marcadores: análise, entrevista
6 Comments:
Olá Edu. Sou jornalista, moro em Salvador e encontrei seu blog por acaso navegando pela internet. Já trabalhei em algumas assessorias aqui da capital baiana como atendimento e me vi em diversas situações descritas por vc e outros colaboradores. Transitei, também, em alguns veículos da cidade e agora acabo de montar a minha assessoria de comunicação. Acho que passar por veículo é fundamental para que o assessor saiba exatamente o que é notícia e como ela pode emplacar de acordo com as mídias de interesse.
Adorei o seu blog e a partir de hoje serei uma leitora assídua. Abs!!!
Olá Gabriela, tudo bem? Agradeço a visita e comentário. Na verdade essa é uma discussão antiga. Conheço alguns assessores ótimos que nunca pisaram numa redação. Creio que é uma questão de bom senso, de aprender com a rotina, de ler e acompanhar os veículos para identificar o que pode ou não ser pauta. Canso de receber follow up aqui de material que já teve alguma notinha publicada no site. Outras, de material que não passam nem perto dos temas que tratamos na publicação. Como disse o Perin, fiquem espertos!
É verdade. Tem muito a ver com feeling mesmo do jornalista e, é claro, dos critérios de noticiabilidade. Retorno para assessoria de comunicação, acredito que mais amadurecida e com maior autonomia. Adorei as discussões porpostas aqui e sempre que puder vou participar. :)))
O entrevistado deveria seguir ele mesmo seu próprio conselho... Pra quem batia o telefone na cara dos assessores, ele ta fazendo um bom marketing pessoal.
curiosidade: quem aqui já parou (teve tempo) para ouvir programas de áudio na Internet? Pode ser nacional ou não. E acessa sempre?
Tenho essa grande dúvida...
Oi Edu!
Eu adoro seu blog. Pra mim é o melhor lugar hoje onde vejo discussão séria, atual, antenada e bem humorada sobre a minha atividade no jornalismo.
Você está nos meus favoritos faz tempo.
Parabéns, grande abraço e muito sucesso.
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