Nação de estagiários

Saudosismo à parte, que saudades das noites enfurnado em uma sala de aula. Quando estamos estudando, fazendo faculdade, jamais passa pela cabeça a falta que sentiremos de tudo aquilo. O que se quer logo é terminar o curso e arrumar um emprego na área com aquele sonho de se tornar editor de Veja, apresentador da Globo, repórter de cidades do Estadão ou especial da Rádio Bandeirantes. A doce e velha ilusão que leva milhares de adolescentes aos cursos de comunicação social.
Geralmente começávamos – e ainda é assim na maior parte dos casos – pelo famigerado estágio. E a internet facilitou muito a colocação de estudantes no mercado de trabalho. O primeiro emprego na área, entretanto, se traduzia em um misto de empolgação com medo: “como vou dar conta, vou aprender, vou errar pacas”. Perguntas freqüentes em nossa cabeça jovem e sem experiência.
E nada melhor que colocar a mão na massa para respondê-las. Uma simples notinha assinada e publicada no site ou um follow up de sucesso bastam para elevar o moral e gerar comichões de felicidade naquele pobre e perdido ser. Ele mal sabe no que se enfiou!
Sempre achei muito válida a contratação de estagiários na área de comunicação e lembro-me perfeitamente de abominar as atitudes conservadoras de proibição dessa prática pelo sindicato da classe. Mas, com alguns anos de profissão e tantas mudanças no mercado, descobri que, lá no fundo, a entidade até que tinha lá sua razão.
Com sinceridade, não sei a quantas anda dentro do sindicato a coibição de iniciativas do gênero. Mas o mercado tem deitado e rolado. A situação beira o banal. Afinal, para que contratar um profissional experiente para trabalhar – e com boas dores nas costas causadas pelos longos fechamentos - quando pode-se pagar uma miséria para algum estudante ou recém-formado que dificilmente negará uma porta aberta como essa?
Alguns motivos são óbvios. Cá pra nós, a desculpa de que estão preparando pessoas para o mercado não cola mais. Hoje, seja em assessoria ou redação, esses pupilos são tratados e obrigados a trabalhar como os tais profissionais formados e experientes. E cobrados a ferro e fogo por resultados tão bons quanto os que seriam proporcionados por um jornalista ou assessor com história.
Só pelo fato de estar no banco de uma universidade no Brasil, o indivíduo já é considerado um ser da elite, da classe alta, abastado. Até porque pagar os olhos da cara nos cursos de hoje realmente é para poucos. Raras exceções, quem está em universidade privada veio de ótimos colégios e cursinhos. Nem pretendo entrar no mérito da desigualdade ou distribuição de renda. Mas sabemos que muitos desses jovens podem se dar ao luxo de não depender do salário para sobreviver, não ajudam a sustentar as dívidas da casa, moram com os pais, e topam, arriscam, compram a idéia.
Não estou dizendo que a prática deve ser extirpada da face da terra. Ao contrário. Grandes jornalistas começaram dessa forma e muitos bons profissionais ainda estão por vir. O problema é quando há um mercado carente, com queda de anunciantes e leitores – contas no caso das agências – que vê na exploração da mão-de-obra barata e sem qualificação a sua última e única saída, a condição desanda. E, salvo restrições, as agências e empresas que mantêm departamentos de comunicação abusam sem a menor vergonha.
Participe de qualquer lista de empregos para jornalistas e notará em poucas mensagens que não há mais emprego. As ofertas só buscam estagiários. Mais de 90% das oportunidades estão dedicadas a estudantes ou recém-formados. Ao verificar as exigências e características, perceberá que o posto deveria ser destinado a um profissional formado, competente, experiente e com muito a colaborar.
Enquanto isso, excelentes jornalistas e relações públicas ficam pulando de galho e galho e mendigando frilas para poderem sobreviver com o mínimo de dignidade. Aqueles que tentam valorizar seu trabalho, cobram preços de tabelas de sindicatos e brigam para aumentar o pagamento por uma matéria, comumente são jogados para escanteio.
Está na hora do mercado acordar e pensar em trabalhar com margens menores de lucratividade e escala, profissionalizar os serviços oferecidos e, claro, valorizar a profissão.
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4 Comments:
Não existe estágio em jornalismo. Existe somente o salário de estagiário de jornalismo. Já trabalhei em uma redação com um editor e cinco estagiários. Trabalho em uma hoje com 12 jornalistas e 1 estagiário. A diferença é clara. Passa pela credibilidade, qualidade e condições básicas para se trabalhar. O risco é achar que o estagiário é o culpado da história. "Maldito tá ocupando a vaga que seria minha". Nação de estagiários.. talvez. Mas muito mais Nação de empresários filhos da puta. Mas, no final das contas, a culpa sempre é dos impostos altos.
Bruno, em nenhum momento culpo os estagiários. Como eu disse no texto, acho que são bastante úteis. Mas devem estar na redação ou assessoria para aprender e ajudar, não para assumir o trabalho. A culpa é mesmo dos "donos" do negócio. E a desculpa é sempre a mesma. Concordo que os impostos no Brasil são altos demais e eles têm muitas razões em reclamar. Mas quando há redução, o povo fica a ver navios. O imposto para materiais de construção caiu 5%. Sabe de quanto foi a redução na ponta, para o consumidor final? 0,3%. Sim... é isso. Os empresários engoliram a redução como lucro.
A culpa é dos donos do negócio e também dos estagiários, que aceitam esse tipo de situação sem contestar. Conheço vários assim, que podem estar em uma baita empresa, e saem de lá com cabeça de estagiários, dizendo "amém" para tudo, sem contestar nada. Aí os donos do negócio aproveitam e montam no lombo do infeliz na hora que bem entendem.
E eu achava q estas coisas só aconteciam aqui em Maceió (AL)...
Edu, recomendei seu blog para nossa comissão. Comissão de Jornalistas em Assessoria .
Saudações
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